30/09/2019 - 13:30 - 15:00 EO-8I - GT 8 - Acolhimento, Periferia e Integralidade |
30894 - CUIDADOS PERIFÉRICOS: TERRITORIALIZAÇÃO E INTERSUBJETIVIDADE NA PRODUÇÃO DO CUIDADO NOS MORROS E NO MANGUE CARLOS ROBERTO DE CASTRO E SILVA - UNIFESP, DANILO MIRANDA ANHAS - UNIFESP, LUCIANE MARIA PEZZATO - UNIFESP, LIA THIEME OIKAWA ZANGIROLANI - UNIFESP, KARINA RODRIGUES MATAVELLI ROSA - UNIFESP, MAYARA VIANNA - UNIFESP, LAIS HELENA DUTRA - UNIFESP
As sociedades capitalistas periféricas, como a brasileira, à luz da conjuntura sócio-histórica atual de acirramento de uma racionalidade neoliberal, revelam níveis elevados de desigualdade social, expressos pela precariedade de condições de vida e desmonte do Sistema Único de Saúde. Por sua vez a Estratégia Saúde da Família (ESF) apresenta ferramentas para reorientar a Atenção Básica (AB), enfrentando, todavia, dificuldades quanto à implementação da formação em saúde referenciada em uma visão integral de sujeito, e da valorização de dispositivos para a produção do cuidado, considerando os modos de viver, os saberes e as forças sociais e políticas organizativas das comunidades. Na contramão da lógica neoliberal entendemos o cuidado como uma atitude de vida que se traduz em um compromisso ético-político com a existência do outro, com o cuidado de si e com a sustentabilidade do planeta. A valorização da ética do cuidado, ao mesmo tempo que possibilita um aprofundamento da dimensão subjetiva/afetiva relativa à intervenção psicossocial, contribui com a ressignificação de lutas contra diversas formas de opressão, assimetrias de poder e desideologização. Este estudo tem como objetivo discutir processos de politização do cuidado por meio de práticas da ESF desenvolvidas em contextos de exclusão social, por meio de dois projetos financiados pela FAPESP (2016/23793-2) e CNPq (407836/2016-0). A pesquisa participativa foi a opção metodológica, pois amplia um processo de parceria de ensino, pesquisa e extensão entre pesquisadores da Universidade e serviços de Saúde da Baixada Santista. Estas localidades de atuação das quatro Unidades de saúde estudadas são áreas de alta e muito alta vulnerabilidade social, marcadas pelo aumento da pobreza e diversas formas de violência. Consideramos que a politização do cuidado exige mediações que favoreçam a apreciação de um processo balizado pelo contexto sócio histórico das práticas em saúde e qualidade dos vínculos estabelecidos nos territórios. Desta forma definiu-se dois eixos de discussão: 1- Processos de territorialização em saúde. A territorialidade é um conceito ligado intimamente ao modo como as pessoas utilizam a terra, como elas próprias se organizam no espaço e se sentem pertencidas a este. Além disso, destacamos uma ideia central de território baseada nas ações engendradas pelos serviços existentes, capaz de transitar do político para o cultural, das fronteiras entre povos aos limites do corpo e ao afeto entre as pessoas. Na região dos Morros, há lugares onde o sentimento de pertencimento é prejudicado pelo “aluguel de chão”, pois apesar de um histórico de ocupação do lugar, inclusive de lutas exitosas por melhorias, moradores devem pagar uma taxa pelo uso do terreno para uma pessoa que tem a posse de uma grande parte do território. Esta situação se coaduna com dificuldades de transporte na região, as quais reforçam estigmas de preconceito em relação àqueles que moram na orla. Ainda, notamos a dissonância entre as necessidades sentidas pela população e os serviços ofertados, por exemplo, com o funcionamento de equipamentos que operam à revelia da rotina de vida dos moradores. No caso do Mangue a parceria com a Organização Social tem precarizado os serviços e reforçado o distanciamento entre Unidades de Saúde e população. A relação entre profissionais de saúde e lideranças comunitárias expressa contradições quanto à percepção entre necessidades e demandas, funcionando ainda no modelo produtivista, minando a árdua construção de vínculos entre estes sujeitos. 2- A intersubjetividade como balizadora da produção do cuidado: A ética do cuidado possibilita a articulação entre a esfera das relações cotidianas e afetivas com princípios éticos e políticos que buscam o enfrentamento das injustiças sociais. Identificamos e classificamos processos de construção de alguns tipos de cuidado nas comunidades estudadas, os quais são expressos desde atitudes mais altruístas e missionárias, passando por aqueles mais clientelistas e tecnicistas, até aquelas que vislumbram um horizonte ético-político. Este último tipo de cuidado se expressa através de um compromisso radical com a vida, com a transformação social, com a garantia de direitos e de enfrentamento ao sofrimento configurado pelas desigualdades sociais produzidas historicamente. Este tipo de cuidado baseia-se na horizontalidade, dialogicidade, alteridade e afetividade. Algumas destas características se apresentaram nos territórios estudados, na medida que a solidariedade e a busca de espaços de troca de saberes e experiências são valorizados em defesa do coletivo. Por fim, consideramos que o cuidado ético-político expressa as potencialidades das ações coletivas em meio à radicalização do neoliberalismo e sua lógica individualista. Apostamos neste tipo de cuidado como estratégia de produção da felicidade ético-política.
|

|