29/09/2019 - 13:30 - 15:00 EO-35E - GT 35 - Saúde da População Negra e Indígena: Expressões da Vulnerabilidade e do Racismo |
31224 - NECESSIDADES EM SAÚDE NUMA COMUNIDADE QUILOMBOLA DO AGRESTE PERNAMBUCANO WANESSA DA SILVA GOMES - IAM/ FIOCRUZ-PE, IDÊ GOMES DANTAS GURGEL - IAM/ FIOCRUZ-PE
INTRODUÇÃO
A saúde é resultante do conjunto de experiências sociais, sejam referentes a organização da vida cotidiana, a sociabilidade, a afetividade, cultura e ao lazer, bem como as relações com a natureza. Dessa forma, a saúde não pode ser separada das condições de vida, estando relacionada ao controle sobre os processos de reprodução da vida social (SAMAJA, 2000). Nesse sentido, as necessidades referem-se a sujeitos coletivos, não havendo necessidades individuais descoladas da luta de classe, de gênero e étnica, nesse estudo trabalhamos com uma comunidade quilombola, que como as demais encontram-se em vulnerabilização e são historicamente marginalizadas.
OBJETIVO
Analisar as necessidades de saúde de uma comunidade quilombola do agreste pernambucano.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa-ação realizada período de março a dezembro de 2018, numa comunidade quilombola do agreste pernambucano. Participaram do estudo 10 sujeitos, por meio de entrevistas em profundidade.
Para análise dos dados, utilizamos o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), conforme Lefèvre e Lefèvre (2005).
A pesquisa submetida ao Comitê de ética do Instituto Aggeu Magalhães, sendo aprovada com a CAAE: 83178018.0.0000.5190.
RESULTADOS
Os pontos levantados referem-se a qualidade do atendimento na USF, a uma alimentação saudável, conquista territorial e ao acesso à água, que mostram uma forte relação desses temas com a saúde.
(DSC 1) O próprio profissional a forma como ele atende a gente, nem olha pra gente e acha que já atendeu, já passa um medicamento e aí não fomos atendidos. Eu acho que precisa ter um tempo mais adequado para que as pessoas se sinta em um bom atendimento, pelo o menos pra dizer: ‘eu vou ter saúde um pouco mais, sem precisar tomar tanto medicamento’. O médico senta, ele olha pra você e vai logo escrevendo e toma o papel e manda eu fazer exame. Não! Me diga o que é que eu tenho? Diga como eu vou me sentir, não só meter exame, exame, exame e exame, não resolve nada!
Como podemos ver no DSC 1, uma das necessidades relatadas é a de diálogo com o profissional de saúde, onde os usuários possam ser ouvidos e que a conduta médica seja esclarecida. Dessa forma, não existe vínculo entre médico e a população, causando uma insatisfação em relação ao cuidado ofertado, onde esse não atende as necessidades dos quilombolas.
(DSC 2) Primeiro, que tenha uma boa alimentação, mas também a gente tudo que fizer fazer para o bem de nossa saúde e a gente sabe que quando a gente não se alimenta bem e não tem uma água tratada a gente é prejudicado. Pra eu ter mais saúde hoje, é eu só poder comer aquela coisa que eu mesmo plantasse, que eu mesmo fizesse. Uma galinha dessa aqui tem um ano, você pegar uma galinha dessa pra comer, você sente a coisa melhor do mundo e é sadio, mas só que a galinha de granja é quarenta dias, e não tem condição de uma coisa dessa ser boa pra pessoa, aquilo ali acaba com a saúde. Hoje, as comunidades quilombolas, se a gente tivesse conseguido os nossos territórios pra expandir mais as plantações e ter uma boa alimentação, eu acho que a gente teria mais saúde.
O DSC 2 mostra a necessidade em se ter uma boa alimentação, livre de agrotóxicos e hormônios. Valorizando o consumo dos alimentos produzidos na própria comunidade, pois esses são cultivados sem a adição de produtos que façam mal à saúde. Outro ponto importante é a luta pelo território quilombola, a necessidade de expansão das terras, para garantir as áreas de cultivos e criações. Além disso, o DSC 2 expõe a importância do acesso a água, tanto para o consumo e uso residencial, quanto para irrigar as plantações.
O cultivo, criação e produção de alimento por comunidades quilombolas fazem parte de seus modos de vida e de sua herança ancestral. A dieta quilombola historicamente foi constituída, principalmente, por alimentos cultivados localmente (SILVA e BAPTISTA, 2016).
CONCLUSÕES
As necessidades de saúde dos quilombolas não são supridas apenas por meio do setor saúde, o que não tira a importância de seus serviços, porém os mesmos não estão conseguindo garantir um atendimento de qualidade, que respeite as necessidades dessa população. São insuficientes para responder às inúmeras e complexas causas de sofrimento, que perpassam o paradigma biomédico, precisando, assim, de ações do Estado que garantam a reprodução de seus modos de vidas, além do acesso a serviços de qualidade que atendam às suas necessidades em saúde.
REFERÊNCIAS
SAMAJA, J. A Reprodução Social e a Saúde: elementos teóricos e metodológicos sobre a questão das ‘relações’ entre saúde e condições de vida. Salvador: Casa da Qualidade, 2000. 102p.
LEFÈVRE, F; LEFÈVRE, A. M. C. Discurso do Sujeito Coletivo: Um novo enfoque em pesquisa qualitativa (desdobramentos). 2. Ed., Caxias do Sul, RS: Educs, p. 256, 2005;
SILVA, R. P.; BAPTISTA, S. R. A comida em comunidades quilombolas: reflexões sobre saberes e mercados solidários. Ágora. Santa Cruz do Sul, v.18,n. 01,p. 68-77, jan./jun. 2016.
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