29/09/2019 - 13:30 - 15:00 EO-35E - GT 35 - Saúde da População Negra e Indígena: Expressões da Vulnerabilidade e do Racismo |
31676 - A COMPLEXA CLASSIFICAÇÃO RACIAL AMERICANA E A UTILIZAÇÃO DAS NOÇÕES DE RAÇA EM ARTIGOS CIENTÍFICOS STEPHANIE DOS SANTOS FRANÇA - UFBA, THALIA CRISTINE NOVAES DE VASCONCELOS - UFBA, MARCOS VINÍCIUS RIBEIRO DE ARAÚJO - UFBA
Apresentação/Introdução: Esta pesquisa faz parte de um projeto maior, intitulado “Contribuição da produção científica sobre saúde da população negra para a construção de políticas de saúde voltadas para a população negra”. A partir desse projeto, uma das vertentes a qual nos debruçamos foi a análise dos termos de classificação racial utilizados em artigos norteamericanos que foram selecionados na plataforma Web of Science. Entendemos raça como um conceito social, distanciando-se portanto da visão biologicista que associa raça a aspectos genéticos.
Objetivos: Objetiva analisar as classificações raciais presentes nos artigos internacionais nos últimos dois anos (2017-2018) a partir da quantificação dos artigos internacionais publicados que abordam a temática raça, racismo e processos de saúde/doença da população negra e verificação e compreensão da noção de raça empregada nos artigos científicos internacionais selecionados no Web of Science.
Metodologia: Para este momento da pesquisa, utilizamos bases de dados internacionais (WebOfScience) para pesquisar e analisar a produção científica que contempla as relações entre raça, racismo e processos de saúde/doença nos anos de 2017 a 2018, contabilizamos cerca de 680 artigos: 425 em 2017 e 255 em 2018. Pesquisamos os artigos a partir da composição de uma lista de descritores. A combinação de descritores escolhida foi: race and black not animals and health e race and black not animals and health and racism. A seleção dos artigos foi feita com base na leitura dos seus resumos. Apenas artigos empíricos que abordassem questões sobre raça, racismo e saúde da população negra foram selecionados e colocados em uma planilha onde estão separados por ano. Os artigos eleitos eram lançados na planilha de coleta. Após a seleção dos artigos, houve o momento de análise que também foi sistematizada em um planilha composta pelos seguintes itens: Descrição do evento saúde-doença tratado no artigo; Categorização do evento; Tipo do problema levantado; Noção de raça trabalhada no artigo; Relação entre a raça e o evento feita pelo artigo. A partir dessa análise, buscou-se descobrir qual a noção de raça trabalhada em cada artigo.
Resultados e discussão: Até o momento, desde o início desta investigação, o levantamento realizado nas bases científicas de dados internacionais aponta para uma classificação racial complexa, utilizada na produção dos artigos científicos internacionais, em sua maioria produzidos nos Estados Unidos. Percebemos a utilização de termos diferentes entre os estados americanos para se referenciar a pessoas que não são brancas (afroamerican, black, black hispanic, non-hispanic black, others). Os EUA, inicialmente, partia da utilização de uma classificação binária que enquadra a maioria da população nas categorias branca ou negra apenas (black, white), considerando a lógica da hipodescência. A categorização racial americana está deixando seus padrões antigos e se aproximado da classificação brasileira, onde algumas pessoas deixaram de se declarar apenas como brancas e negras e passaram a se declarar como multirraciais. Os significados abrangentes do "negro" ilustram a maneira pela qual as categorias raciais são moldadas politicamente. Nos Estados Unidos os instrumentos de informação em saúde consideram apenas branco e negro como raças, os latinos são considerados grupos étnicos que englobam diferentes povos. Em Miami por exemplo, latino é sinônimo de cubano, enquanto que em Nova Iorque é sinônimo de porto-riquenho, mas no sudoeste americano refere-se a mexicanos. Além disso, os termos hispânico e não hispânico são utilizados para definir pessoas com origem espanhola. Os termos de classificação racial variam de estado para estado, onde, alguns consideram latinos também como uma raça distinta. A partir disso, questionamos neste trabalho qual a fundamentação dessas classificações étnico-raciais tão diversas e quais os critérios levados em consideração na elaboração dos artigos científicos internacionais, principalmente os norte-americanos. Para além disso, analisamos como a raça associada a suas classificações, enquanto um dos elementos estruturantes das relações sociais, estabelecia-se sob forma de racismo, sendo, desse modo, um determinante social de saúde, condicionando o processo saúde-doença, especificamente para os negros.
Conclusões/Considerações Finais: As inferências resultantes desta pesquisa pautam-se na fundamentação dessas classificações étnico-raciais tão diversas e em quais critérios foram levados em consideração na elaboração dos artigos científicos internacionais, principalmente os norte-americanos. Para além disso, analisamos como a raça, associada a suas classificações, enquanto um dos elementos estruturantes das relações sociais, estabelecia-se sob forma de racismo, sendo, desse modo, um determinante social de saúde, condicionando o processo saúde-doença, especificamente para os negros.
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