29/09/2019 - 13:30 - 15:00 EO-3E - GT 3 - Metodologias em pesquisa e formação sob a ótica da Análise Institucional |
30823 - CARTOGRAFIA COMO METODOLOGIA: UMA EXPERIÊNCIA DE PESQUISA NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA JOSIANE MOREIRA GERMANO - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, TATIANA ALMEIDA COUTO - UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA, ISIS GOMES BIONDI - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA, ALBA BENEMÉRITA ALVES VILELA - UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA
Introdução: Refletindo sobre o cotidiano de uma Unidade de Saúde da Família e, no trabalho produzido em seu interior, é possível observar vários planos/composições na organização das equipes, dos trabalhadores e dos usuários. Cada qual ocupando as cenas com suas intencionalidades e projetos, o que favorece as disputas de processo(s) de trabalho e produção(ões) do cuidado. Reiteramos que, esses planos, na constituição de uma unidade de saúde podem mobilizar os atores a partir dos encontros e dos atravessamentos das distintas lógicas na composição do trabalho em saúde. Assim, diante da complexidade do trabalho, reforçamos que este se apresenta como um objeto de complexa investigação. Para tanto, nos valemos do método cartográfico, visto que, é uma oportunidade de pesquisa que busca romper a cisão entre pesquisador e objetivo no ato de pesquisar. Objetivo: Pensar a cartografia como método de pesquisa, sobretudo, no que se refere ao processo de trabalho das equipes na Estratégia Saúde da Família (ESF), em especial ao Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF). Metodologia: Destacamos que, a complexidade das organizações do trabalho em saúde impõe alguns desafios metodológicos para os processos investigativos. Segundo Feuerwerker e Merhy (2011), a depender de como se organiza um modo de pesquisar, apenas alguns planos são acessados pelo pesquisador. Os autores incitam que a complexidade ainda é maior visto que, o que encontramos no cotidiano são vestígios do processo do trabalho e da produção do cuidado que é realizada em ato. Assim, como método de produção do conhecimento, recorremos à cartografia, proposta por Guilles Deleuze e Félix Guattari, por meio da coleção: “Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia”, publicados pela primeira vez no Brasil em 1995. Presente em diversas áreas, a cartografia vem sendo incorporada intensamente nas investigações brasileiras a começar pela psicanalista Suely Rolnik em 1980. Diversos pesquisadores da Saúde Coletiva também têm dedicado suas investigações a partir deste método, tais como: Eduardo Passos, Laura Camargo Macruz Feuerwerker, Ricardo Burg Ceccim, Rossana Staevie Baduy, Virginia Kastrup, por exemplo. Partindo da ideia do rizoma, conceito-chave desta teoria, compreendemos que a cartografia vai para além do método e, apresenta-se como prática capaz de inserir-se pelos múltiplos planos e composições de um território. Assim, este estudo parte da experiência da elaboração de uma dissertação de mestrado que buscou cartografar o processo de trabalho de uma equipe do NASF em um município de pequeno porte da região sul da Bahia. Aberta aos encontros, a pesquisadora adentrou ao campo de um modo antropofágico, acompanhando o processo de trabalho da equipe NASF pelo período de 12 meses. Destaca-se que, a partir das pistas cartografadas, por meio das experimentações, foram produzidas oficinas para problematização dos entraves do cotidiano, bem como foto-cartografias, poemas e materiais pedagógicos. Resultados e discussão: Para os fins desta pesquisa, reiteramos que a metodologia cartográfica também acontece a partir de territórios. Destacando que, toda pesquisa opera em campos e territórios, e o método cartográfico sugere que a pesquisa-acontecimento esteja no encontro do pesquisador e território. Assim, o pesquisador busca cartografar exatamente o que é móvel, o “entre”, o acontecimento. Desta maneira, trazemos para a cena que, a cartografia não é um método fechado e tão pouco tem o objetivo de apontar passos. A partir das experimentações, o que se tem é um mapa aberto a ser cartografado. Nesta mesma direção, afirmamos que, ao estar atento ao processo de trabalho em saúde no âmbito da ESF, o pesquisador caminha junto com o que vai pesquisar, explorando os múltiplos planos/composição das equipes de saúde. Nesta perspectiva metodológica, faz-se necessário que o pesquisador seja/esteja “borrado” pelo objeto, pelo território, afastando-se da ideia dos “vieses” pregados pela pesquisa positivista tradicional. De acordo com Costa (2014), um elemento fundamental para uma prática cartográfica é o encontro, este que é da ordem do inusitado entre os corpos. Ainda segundo o autor, tudo é passível de gerar um encontro cartográfico. Neste sentido, denotamos que, ao cartografarmos o processo de trabalho do NASF, o propósito não se limita a definir o processo de trabalho, mas compreender os modos aos quais os corpos afetam e são afetados, inclusive o corpo do pesquisador imerso no processo. Reforçamos também que, neste estudo, a partir das pistas cartografadas destaca-se a produção pedagógica junto aos profissionais do NASF, dialogando então, com o construto teórico da Educação Permanente em Saúde a partir das ideias de Ceccim e Feuerwerker. Conclusões: Denotamos que a cartografia desencadeia um processo de desterritorialização, dialogando com outros modos de investigar o cotidiano dos serviços de saúde e aproximando esse processo de produção dos aspectos criativos, inventivos e artísticos.
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