29/09/2019 - 15:00 - 16:30 CB-2A - GT 2 - Pesquisa Qualitativa em Saúde no Norte do Brasil: Uma Abordagem de Pesquisa Promotora de Equidade |
30537 - O PROBLEMA METODOLÓGICO E POLITICO DE RECOLHER EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS EM REGIÕES ARRISCADAS DA REALIDADE AMAZÔNICA: PROBLEMATIZAÇÕES PARA A EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE HÉLÈNE LAPERRIÈRE - UNIVERSITY OF OTTAWA
Introdução/Problematização. Haverá um desaparecimento de evidências empíricas em avaliação participativa de modo a convergir com o discurso social hegemônico no planejamento e gestão em saúde? Poucos pesquisadores compartilham experiências de ameaças à vida quando convivem em áreas conflituosas. Cohen (2012) identificou as áreas conflituosas como ambientes nos quais a violência impede os trabalhos de campo, avaliações e pesquisas. Há uma ética tácita segundo a qual a segurança dos participantes tem prioridade sobre os objetivos de pesquisa e avaliação. Pérouse de Montclos (2012) aponta a ausência de crítica política nos relatórios oficiais como origem da falta de dados sobre as subtilidades do campo observadas pelos trabalhadores em saúde. Portanto, a autocensura permite evitar as afirmações comprometedoras contra colegas ou organizações. Sobretudo quando se tenta conjugar o rigor científico eurocêntrico com avaliações e intervenções complexas (BYRNE, 2013). Para viabilizar formas democráticas de colaboração entre intelectuais, gestores e trabalhadores da saúde, temos que considerar os desafios éticos, metodológicos e políticos envolvidos.
Objectivos. (a) abrir o debate sobre os aspectos éticos, metodológicos e transnacionais da produção de conhecimentos dirigidos aos programas em saúde ao nível microlocal; (b) abordar a censura existente em relação às ameaças à vida existentes em relação aos agentes envolvidos com ações planejadas de promoção e prevenção da saúde e (c) reinterpretar, com novas problematizações, as situações de avaliação participativa de programas de saúde em áreas conflituosas e com violência.
Metodologia: Uma autoetnografia reconstrói as narrativas como voluntária e pesquisadora avaliadora. Na década dos anos 90, atuei nos programas brasileiros de luta contra hanseníase e DSTs/HIV/AIDS, na elaboração de ações rurais de extensão ligadas a um centro de referência. Neste período, presenciei a municipalização da rede de saúde, a formação do Conselho Municipal de Saúde como tentativa de participação da sociedade civil, o Fórum Municipal de Saúde e a descentralização dos programas estaduais de saúde, a busca ativa para o controle da Hanseníase, a aparição dos projetos pilotos de prevenção das DSTs com as profissionais do sexo e o acesso gratuito a terapia para os portadores da AIDS.
Resultados. Para escapar de potencial acusação de ser um espião, que transmite informação interna afora ao estrangeiro (ZENOBI, 2010), calar-se era uma opção de sobrevivência. Alguns participantes (profissionais do sexo e multiplicadores) questionaram o significado de uma participação na qual tinham de “compartilhar [divulgar] informação”. Qual seria o impacto desta publicação por elas? As relações misturavam-se entre atores sociais das estruturas sanitárias, policiais, legais, governamentais, culturais e criminais. Éramos avisados de que a participação nas entrevistas coletivas podia terminar em confissões espontâneas, cuja livre expressão ia ser alvo de atos violentos simbólicos ou físicos. O período pré-eleitoral exacerbava estas tensões. Ao fim, os beneficiários dos projetos iam ser mulheres profissionais do sexo que eram classificadas como a “ralé” (SOUZA, 2011) no município. Elas usavam códigos sutis e sofisticados para testar como eu ia manter segredos. Será que eu poderia divulgar informação indiscreta nas conversas fora do grupo? Será que eu possuía o juízo de alterar as respostas nos resultados de pesquisa? Em outro momento, antes da entrevista, um participante central (politicamente influente) falou: “Sim, lembro de você. Você era amiga de...” (2004, conversação pessoal). Era um aviso sutil de que ele estava de olho em mim; ambos sabíamos sobre as circunstâncias suspeitas da morte do filho desta amiga. Conversações privadas juntavam-se para indicar o risco de trabalhar como enfermeira nas áreas de trabalho sexual. Durante as mudanças pós-eleitorais, havia constantemente a ameaça de perder o emprego, sobretudo com a municipalização dos serviços de saúde (monopólio dos empregos na rede de saúde municipal).
Conclusões. Nas fronteiras internacionais, a região amazônica atrai tráficos ilícitos, transição de população clandestina ou invasão de terra (TORRES e OLIVEIRA, 2012; GUIMARAES e SANTOS, 2013; CRB, 2015). Métodos de intimidação reforçavam autocensura (por exemplo, desaparecimentos e homicídios). Tem de ocultar qualquer evidência inoportuna, por exemplo, informação sobre redes camufladas entre oponentes. Discutimos abertamente sobre as considerações éticas de expor “verdades” indesejadas. Concordamos que qualquer observação sobre potenciais gangues, traficantes de drogas, políticos ou Forças Armas devia manter-se secreta. Como escrever ou publicar as incoerências do campo nos relatórios oficiais, na tese universitária e nas publicações? Neste sentido, o formato do discurso oficial da academia confere o silêncio.
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