28/09/2019 - 15:00 - 16:30 CB-7A - GT 7 - Processos de formação, saúde e práticas no contexto dos adoecimentos de longa duração II |
31460 - OBESIDADE E SOBREPESO: CONTRIBUIÇÕES DA LITERATURA SOCIOANTROPOLÓGICA DANIELLE MONTEIRO CÃMARA - UERJ
Introdução:
Este trabalho se refere à pesquisa de mestrado em andamento e emerge da atuação como psicóloga no atendimento a indivíduos obesos e com sobrepeso. Nessa experiência observamos muitas questões envolvidas no processo de cuidado e na forma com que os pacientes lidavam com seus corpos e com o tratamento médico proposto. A partir da nossa escuta, verificamos nas narrativas desses sujeitos suas motivações, desejos e conflitos, sempre atravessados pelas relações sociais.
Obesidade e sobrepeso são conceitos médicos para a classificação do excesso de gordura corporal a partir de parâmetros numéricos como, principalmente, o Índice de Massa Corporal (IMC). O IMC, contudo, segundo as “Diretrizes Brasileiras de Obesidade” (2016, p.15), “é um bom marcador, mas não totalmente correlacionado com a gordura corporal.” São considerados doenças crônicas não transmissíveis, além de fatores de risco para o desenvolvimento de doenças graves. Com isso, a obesidade e o sobrepeso passaram a ser, cada vez mais, objeto de pesquisas e campanhas em saúde, despertando interesses e investimentos de diferentes atores – como as indústrias farmacêutica e alimentícia, cirurgiões bariátricos, entre outros. A justificativa é combater a epidemia de obesidade, erradicando esse fator de risco. O combate à obesidade se dá, prioritariamente, com atuação em seus determinantes diretos, que são uma dieta hipercalórica e atividade física insuficiente. Entretanto, como a própria medicina postula, a obesidade e o sobrepeso têm etiologia multifatorial, com implicação de fatores biopsicossociais, culturais e econômicos. Tais fatores são os determinantes indiretos, os Determinantes Sociais da Saúde (DSS). A questão que se coloca é se na clínica da obesidade os DDS estão sendo suficientemente considerados. Nesse sentido, a partir da visão sócioantropológica, pesquisamos sobre os atravessamentos sociais do que a medicina chama de sobrepeso e obesidade, problematizando a questão da medicalização do corpo gordo.
Objetivos: Levantar a literatura socioantropológica recente sobre obesidade e sobrepeso e analisar as possíveis contribuições para os profissionais de saúde.
Metodologia: Revisão bibliográfica.
Resultados: 49 artigos e seis teses, nos últimos dez anos, articulam obesidade e sobrepeso com leituras socioantropológicas. Além destes, realizamos pesquisa ativa acerca de autores das Ciências Sociais que escreveram sobre essa temática. Encontramos abordagens em Crawford, Gard e Wright, Greene, Lupton e Bourdieu.
Considerações finais:
As doenças crônicas, a partir da possibilidade de tratamento farmacológico dos fatores de risco, como hipertensão, diabetes e obesidade, passaram a ser vistas como condições evitáveis. Assim, a Prevenção e a Promoção de Saúde ganharam destaque. A principal prescrição da Promoção da Saúde é a adoção de hábitos saudáveis por parte do indivíduo, que deve modificar seu estilo de vida. Segundo Bourdieu (1980), diferentes estilos de vida são produtos do Hábitus e são condições de existência, por estarem atrelados à posição social. Crawford (1980) escreveu sobre uma “cultura de saudização”, em que a saúde é compreendida como um valor fundamental e que deve nortear as ações do indivíduo. Destacou que, como a medicina, a saudização situa o problema da saúde e da doença ao nível individual. Dessa forma, a responsabilização pela solução também, ocasionando uma despolitização.
A obesidade e o sobrepeso são tratados a partir dessas prescrições individuais. Há algumas décadas são considerados epidemia em diversas partes do mundo (OMS, 2000). Gard e Wright (2005) fazem uma forte crítica. Apontam lacunas nos estudos científicos que embasam tal concepção, afirmando que há mais incertezas do que conclusões; destacam um forte viés naturalista e mecanicista nesses estudos, que partem de pesquisas epidemiológicas; questionam sua prevalência, argumentando que o IMC é uma medida insuficiente para o diagnóstico e concluem que essa epidemia “pode ser vista como um complexo pot-pourri de ciência, moralidade e pressupostos ideológicos sobre as pessoas e suas vidas...” (p. 3). Crawford falou da “medicalização como ideologia” e que atua especialmente em comportamentos desviantes, “substituindo atores religiosos e legais e seus modos de controle social”. (p.369). Entre os exemplos de desvios controlados socialmente, a partir do discurso da promoção da saúde, o autor cita o alcoolismo e a obesidade, que “tornaram-se questões para o diagnóstico médico, e o rótulo de doença lhes foi atribuído” (p.370). Nesse sentido, o controle social do desvio se dá a partir da patologização de condições físicas e comportamentais consideradas fator de risco pela epidemiologia. Questionamos em que medida a medicalização do corpo gordo realmente pode favorecer a saúde desses indivíduos e até que ponto tem favorecido a outros interesses, que se apoiam nos ideais sanitários e estéticos. Assim, esse estudo requer um olhar qualitativo, a partir das Ciências Sociais.
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