29/09/2019 - 15:00 - 16:30 EO-11E - GT 11 - Políticas públicas de saúde e experiências de atenção, cuidado e cura |
31415 - O CUIDADO DE SI COMO ESTRATÉGIA COLETIVA DE EMANCIPAÇÃO: OS COLETIVOS DE GINECOLOGIA NATURAL LUANDA DE OLIVEIRA LIMA - IFF E EPSJV/FIOCRUZ, CLAUDIA BONAN - IFF/FIOCRUZ, PAULA GAUDENZI - IFF/FIOCRUZ
Na primeira infância as meninas estão sempre curiosas sobre seus corpos, mas são orientadas a não tocá-lo. Na adolescência, com a puberdade, são orientadas a se esconder, e a ver esse momento como algo secreto e sagrado, embora seja também associado a desconforto, sujeira e loucura. Quando grávidas, passam a ser reguladas nos hábitos de vestimenta, alimentares, corporais e sexuais. Já após o nascimento, a amamentação é ao mesmo tempo exaltada e julgada. Com a chegada da menopausa, as mulheres são novamente orientadas a controlar os hormônios, a “cuidar da saúde”, do cabelo que não tem mais brilho e da pele que já não é mais sedosa.
Os cuidados ao longo da vida da mulher são muitos e constantes, encontram-se instituídos nas interfaces do senso comum e por isso soam óbvios e naturais. No entanto, tais hábitos – de higiene, saúde, autocuidado –, tão entranhados no dia a dia, foram construídos histórica e culturalmente na intersecção do saber biomédico com uma concepção estereotipada do sexo feminino, hegemônica nos dias de hoje, reforçados com o estabelecimento das especialidades médicas da Obstetrícia e da Ginecologia, ainda que permeados por saberes e práticas populares de cuidado.
Ao longo dos últimos séculos, uma percepção objetificada do corpo da mulher, estruturada em função das diferenças de gênero, se consolidou, trazendo em seu bojo todas as amarras de um sistema patriarcal e colonialista. A partir de uma perspectiva crítica a esse processo, iniciativas de cuidado feminino têm surgido na América Latina, “coletivos de Ginecologia Natural”, iniciativas que difundem outras lógicas de cuidado, que afirmam se basear numa nova concepção de saúde, focada na autonomia feminina, no bem estar e no equilíbrio do corpo, divulgando abordagens alternativas para as mulheres cuidarem de si mesmas. Tais coletivos difundem o autocuidado e o autoconhecimento como movimento de emancipação feminina, onde as práticas e saberes estão em constante movimento de troca e de apoio mútuo.
Nesses coletivos, a relação entre as práticas da curanderia e da biomedicina científica estão presentes, e nota-se a tensão e a necessidade de legitimação dos saberes e dos sujeitos que pretendem construí-lo, dos papéis sociais que se colocam e de seu lugar na construção dos mesmos. Este trabalho discute, partindo da análise desses coletivos, as disputas e os diálogos entre os saberes ditos científicos e os ditos tradicionais a respeito da saúde da mulher. Nesse contexto, buscamos refletir como esses grupos se consolidam como sistemas médicos concorrentes, que vão questionar a ginecologia tradicional, sua percepção de saúde-doença, seus métodos e terapêuticas. Buscamos igualmente refletir sobre seus efeitos no processo de medicalização da população brasileira, especialmente da mulher, analisando suas racionalidades e epistemologias, bem como suas relações com a “medicina heterodoxa”.
Partindo do mapeamento de páginas e grupos em blogs, sites da internet e mídias sociais, publicações, eventos e cursos, percebemos que se difundem novas práticas de cuidado - e outras nem tão novas assim - em grupos de mulheres e no boca a boca, como o uso do coletor menstrual (o famoso copinho), técnicas naturais e métodos não farmacológicos para o alívio das cólicas menstruais e das dores do parto, abordagens alternativas para endometriose e (re)difusão de técnicas para o controle da fertilidade, métodos contraceptivos não medicamentosos, que colocam em cheque o uso da pílula.
O compartilhamento de formas de cuidado diversas direcionadas às mulheres no Brasil contemporâneo, especialmente entre os movimentos de autocuidado femininos, principalmente aqueles conhecidos como “Ginecologia Natural”, difundem a retomada de “saberes populares ancestrais”, utilizando métodos “naturais” para o autocuidado e o autoconhecimento.
Em meio aos textos postados nas mídias e analisados até o momento, é comum que as autoras intitulem-se como bruxas, curandeiras, peregrinas, uma série de termos que definem outro tipo de especialistas na arte de curar, ressignificando-os e buscando marcar a sua conexão com a natureza, com “a Grande Mãe”, além de paralelamente ratificar as práticas e terapêuticas por elas difundidas. Outra parte dos grupos invoca também evidências científicas, de acordo com o método científico tradicional, que já tenham comprovado a eficácia de determinado tratamento ou receita natural.
O presente trabalho configura-se como um ensaio teórico-reflexivo e tem como objetivo compreender tais iniciativas de cuidado feminino presentes na contemporaneidade a partir do conteúdo que tem sido difundido nos coletivos citados. Busca entender as reapropriações e deslocamentos de saberes, práticas, técnicas e tecnologias médicas por eles propostas, refletindo sobre que outras “medicinas da mulher” estão produzindo e como essa produção de conhecimentos, saberes e poderes concorrentes sobre o que é ser mulher afeta as noções de corpo feminino, saúde, doença, terapêutica.
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