30/09/2019 - 13:30 - 15:00 EO-36D - GT 36 - Eixo 3 – Sistemas de Saúde e Tradições de Cura no Brasil: descolonização de saberes e práticas emancipatórias. |
30044 - A MÚSICA NO AMBIENTE HOSPITALAR COMO MEIO DE MODIFICAR A PAISAGEM SONORA: VIVÊNCIAS AFETIVAS E HUMANIZADORAS ENTRE BEBÊS, MÃES E PROFISSIONAIS DA SAÚDE. LUANDA OLIVEIRA SOUZA - UNIFESP, DANTE MARCELLO CLARAMONTE GALLIAN - UNIFESP
Introdução
A música é uma forma de arte presente em praticamente todas as sociedades e relacionando-se com o ser humano desde épocas mais remotas (PETRÁGLIA, 2010). O costume de cantar para crianças é presente em praticamente todas as culturas no mundo e a afetividade acompanha o ser humano da vida intrauterina a sua morte. (RANIRO, 2008).
A paisagem sonora é conceituada por Schafer como qualquer campo de estudos acústico; termo vindo de extensas pesquisas em diversos países englobando estudos sônicos: acústica, psicoacústica, otologia, procedimentos e práticas para o controle de ruídos, percepção de padrões auditivos, entre outros, abrangendo aspectos da paisagem sonora mundial, questionando qual a relação entre os homens e o sons ambientes. (SCHAFER, 2001, p. 18). O musicólogo mostra que os ruídos culminam na poluição sonora e que o silêncio, para a sociedade ocidental, é negativo refletindo que as pessoas gostam de produzir sons para se lembrarem de que não estão sós, e que a ausência de sons pode corresponder à ausência de vida. (SCHAFER, 2001, p.354).
Investigar relação sonora no hospital pode ser um meio de influenciar positivamente em processos de cuidado. A humanização é compreendida como “ampliação da esfera da presença do ser”, de acordo com a ideia primária de Montesquieu e retomada por Teixeira Coelho (GALLIAN, 2017, p.50); e as artes podem influenciar o humano a se encontrar, se questionar e refletir, levando-o a novos posicionamentos para o espaço compartilhado de vida.
Em São Paulo há um coletivo de músicos que desenvolve práticas musicais em 17 hospitais paulistanos tendo objetivo de garantir que todos presentes no ambiente hospitalar tenham acesso a música ao vivo de qualidade. Assim, o estudo analisa a música e suas especificidades imersas nas várias dimensões da saúde, evidenciando como a arte amplia diálogos e viabiliza caminhos de cuidado mais afetivos e humanizantes.
Objetivos
Pretendeu-se verificar em que medida a música ao vivo pode modificar a paisagem sonora hospitalar tornando o hospital um lugar mais humanizado, contribuindo assim para a promoção do cuidado em saúde.
Metodologia
Com apoio da CAPES e passados pelos trâmites éticos, foi realizada a observação participante (VALLADARES , 2014) na atuação dos músicos em 3 hospitais paulistanos, sendo um deles público e dois privados; sendo construído o Caderno de Campo com as percepções da pesquisadora; e entrevistados 2 pacientes, 4 mães de pacientes, 4 profissionais da saúde e 2 músicos através da metodologia História Oral de Vida (MEIHY; HOLANDA, 2014) gerando narrativas que relatam o que as pessoas sentem no ambiente hospitalar após ouvir a música. Os dados foram analisados pelo método qualitativo de Imersão/Cristalização (BORKAN, 1999) estruturado na fenomenologia hermenêutica.
Resultados e discussão
Os resultados apontam que a música harmoniza o hospital modificando sua paisagem sonora. Não houve queixas por parte dos colaboradores da pesquisa.
As narrativas demonstraram que a canção de ninar é meio de desvencilhar o foco da doença, visto que os bebês estão nas incubadoras e consequentemente distantes de relações sensoriais. O vínculo materno é a primeira relação afetiva estável estabelecida, de modo que as experiências afetivas são determinantes para estabelecer padrões de conduta e formas de lidar com as próprias emoções. (RANIRO, 2008 p.49).
A música é um fator externo que desencadeia a sensação de alegria, de receptividade, do choro, de acolhimento, de conforto, de carinho; e vem ao encontro com o conceito da melodia ser uma emoção audível, uma vez que a ao ouvir melodias a estrutura física humana gera reações fisiológicas e psíquicas conscientes ou parcialmente inconscientes culminando em respostas motoras e acima de tudo, respostas emocionais. (ZUCKERKANDL, 1973, p. 14)
Os relatos revelam que o acalanto é significativo na UTI, pois o som pode ser a única forma de conexão entre a mãe e o bebê, logo, interpretamos que a música possa ampliar as relações de afeto. No estudo a equipe de profissionais da saúde, principalmente a de enfermagem, também cantava para as crianças nas interações musicais, participando do cuidado de forma mais afetiva. Assim, reumanizar os cenários de cuidado em saúde apresenta-se, portanto, como um recurso coadjutor do processo terapêutico, uma vez que contribui para a reintegração da experiência humana no âmbito da sua medida, do seu equilíbrio. (GALLIAN, 2017, p.50).
Conclusões
Efeitos como a afetividade, ampliação do cuidado e relação entre profissionais da saúde e pacientes, tão importantes no contexto da saúde, podem ser alcançados pelas modificações da paisagem sonora hospitalar por meio arte, sendo a música um dos poucos recursos que não comprometem o trabalho na UTI e ainda colabora em tornar esse setor mais agradável e humanizados para todos envolvidos.
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