28/09/2019 - 15:00 - 16:30 CB-28A - GT 28 - Saúde, Currículo, Formação: Experiências, Vivências, Aprendizados e Resistência Sobre Raça, Etnia, Gênero e Seus (Des)Afetos: Atores Sociais, Práticas e Cuidados em Saúde |
30780 - ENSINO DE FOUCAULT PARA ACADÊMICOS DA SAÚDE: RESISTÊNCIAS E INVENTIVIDADES DOCENTES E DISCENTES ISABEL CRISTINA LUCK COELHO DE HOLANDA - UNIFOR, LUARA DA COSTA FRANÇA - UNIFOR/DOUTORANDA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA DA UFC, ANA MATTOS BRITO DE ALMEIDA - UNIFOR, CECYLIA KÁTIA LIMAVERDE PESSÔA - UNIFOR, CHRYSTIANE MARIA VERAS PORTO - UNIFOR, DIANA RIBEIRO GONÇALVES DE MEDEIROS GOMES - UNIFOR, MARIA HERCÍLIA DIAS PAZ - UNIFOR
O Sistema Único de Saúde anseia efetivar uma visão complexa do processo saúde-doença, articulada ao modelo biopsicossocial, contudo a formação do profissional de saúde, ainda tecnicista-reducionista, estrutura-se a partir de uma lógica biomédica. Nesse panorama, as Ciências Humanas e Sociais tendem a serem desvalorizadas e desassociadas das Ciências Naturais. Assim, a contribuição foucaultiana de “relações de poder” funciona como ferramenta analítica potente, auxiliando os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica macro/micropolítica dos tensionamentos e jogos de poder que constituem o campo da saúde – desde os modos de subjetivação que constituem os sujeitos às práticas de governo que se incidem sobre a população. Dessa forma, compartilhamos a experiência do ensino de Foucault para alunos de cursos da saúde (Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina Veterinária, Nutrição e Odontologia), desde 2016.2, no módulo Universidade, Saúde e Sociedade (USS) na Universidade de Fortaleza. Esse se propõe visibilizar aspectos determinantes para saúde, analisar seus modelos, articulados aos contextos histórico-sóciopolítico e cultural.
Descrevemos os objetivos de aprendizagem, as estratégias de ensinagem e avaliação, bem como as dificuldades vivenciadas pelos docentes e discentes no contexto de ensino de Foucault. Para atingir os objetivos: a) Relacionar os conceitos de conhecimento, universidade, poder e relações de poder; b) Analisar as relações de poder em diferentes contexto sociais; c) Exemplificar como se exerce poder a partir do pensamento foucaultiano; d) Analisar as relações de poder no processo saúde-doença e suas implicações na formação do profissional da saúde – utilizamos estratégias como: leitura pipoca, estudo dirigido, debate, dramatização das oposições (pais e filhos, homens e mulheres, professores e alunos, líderes espirituais e fiéis, profissionais de saúde e usuários, mídia e modos de vida da pessoas), exibição do filme O Nome da Rosa, entre outras. Como recurso avaliativo, recorremos ao Team-based Learning (TBL), produção de roteiro de entrevista e produção de vídeo que articula as relações de poder a grupos sociais.
Uma das principais dificuldades corresponde à identificação do que seria essencial no pensamento foucaultiano para profissionais da saúde em formação e o nível de aprofundamento dos conceitos. Como o módulo de USS abrange outros conteúdos (processo saúde-doença, promoção da saúde, humanização, Práticas Integrativas e Complementares, etc.), dispomos de apenas 12h/a de ensino de Foucault, entretanto, ao longo do semestre tentamos articular as questões do pensamento de Foucault às demais discussões.
Outro aspecto que complexifica o cenário, corresponde ao perfil de alunos de primeiro semestre, que normalmente não estão amadurecidos para compreender, articulado ao campo da saúde, assuntos complexos mediados por textos filosóficos – que possuem narratividade específica, termos densos e ideias abstratas. Associado a esse perfil, o acadêmico da área da saúde geralmente ingressa na universidade desejando cursar disciplinas que versem saberes como anatomia, biologia, fisiologia, etc. Muitos ponderam que não gostam de ler, que “é muita viagem”, por se tratar de um campo que dialoga de forma sistemática com as ciências humanas e sociais. Entretanto, alguns alunos compreendem a pertinência do estudo das relações de poder e conseguem significar sua importância no cenário da saúde, influenciando os colegas no desenvolvimento de uma postura crítica e reflexiva.
Além desses desafios, é importante visibilizar a tensão vivenciada pelos docentes do módulo em operar com Foucault, pois, em suas formações acadêmicas, não tiveram a oportunidade de serem afetados pela filosofia, articulada a questões da saúde.
Para encantar os alunos, ressignificar seus preconceitos e resistências, apresentar uma nova forma de compreensão sobre as relações de poder e mostrar como o pensamento de Foucault é potente para analisar criticamente a realidade (inclusive os processos de saúde), os docentes teriam que dispor de um maior tempo e de flexibilidade, inclusive na possibilidade de trabalhar com grupos menos numerosos de alunos.
Como tática inventiva, os próprios docentes produziram um texto simplificado sobre conceitos foucaultianos e esboçaram exemplos que dialogam diretamente com a prática de cada curso, para que o conhecimento esteja articulado a realidade do discente, associado a diversificação de estratégias de ensinagem com objetivo de contemplar as singulares formas de aprender – favorecendo um espaço de produção de conhecimento potente e prazeroso.
Por fim, vale ressaltar que, mesmo com tantos desafios, o ensino do pensamento foucaltiano e seus atravessamentos no contexto da formação de profissionais da saúde tem possibilitado uma visão mais crítica do estudante, valorizando a articulação intrínseca da saúde com as ciências sociais e humanas.
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