Outras Linguagens

02/11/2023 - 13:10 - 14:40
OL6 - Potencialdiades e desafios das linguagens dos DESENHOS, ILUSTRAÇÕES, COLAGENS, LITERATURA e ESCRITA DE MEMÓRIAS para pensar o cuidado como práxis decolonizadora

47846 - TRAÇOS EM CARVÃO, CORES DE TERRA: ILUSTRAÇÕES QUE FAZEM PULSAR A MEMÓRIA, FORTALECER A RAIZ E POTENCIALIZAR A IDENTIDADE E O MOVIMENTO DE MULHERES QUILOMBOLAS
NATÁLIA BRISTOT MIGON - UFRGS, TATIANA ENGEL GERHARDT - UFRGS, RICARDO PALMEIRO LUBISCO - UFRGS, NATÁLIA REGINA GREGORINI - UNICAMP, JAQUELINE OLIVEIRA SOARES - SES RS, ROSEMERI DA SILVA MADRID - UFRGS, JOSEANE DOS SANTOS - UFRGS, JOANA DA COSTA ESCHILETTI - UFRGS


Processo de escolha do tema e de produção da obra
O foco das câmeras estava sendo ajustado. Dona Edith, 78 anos, mulher quilombola, professora aposentada, seria a entrevistada naquele momento. Ela nos contaria, para que fosse registrado no documentário Eu, Nós, Elas...Quilombolas, sua participação durante a vacinação contra a COVID-19 no quilombo de Morro Alto (RS). Conseguimos o foco, junto dele registramos também a primeira emoção que se materializava: uma lágrima escorria pelo rosto de Edith. Minutos depois sua fala inicia. Ela nos conta sobre os avisos que fez pelo telefone, sobre os dados levantados por ela (nome, idade, endereço...), sobre a importância de terem sido vacinados, associando a vacina a uma benção, além de fruto do reconhecimento pelos passos anteriores percorridos pela comunidade. O desafio do momento, vincular números de doses aos braços, evoca a identidade, enraizada na memória. Sua narrativa, provocada pela complexidade do presente, percorre diferentes tempos. Edith partilha as lembranças das primeiras reuniões do grupo, os encontros ocorriam debaixo de uma figueira, com café e bolo. Também registra as falas da tia Aurora, através da qual aprendeu sobre o tempo da escravidão. Em dado momento, Dona Edith bate a mão no peito e nos fala: “eu bato no peito e digo, eu sou uma quilombola de orgulho”. Temos a sensação de perceber, diante dos nossos olhares a personificação dos conceitos corpo-território-terra, cuidado. Sensibilizados, buscamos maneiras de sintetizar as informações, conferir momentos de pausa e de elo entre razão e emoção ao espectador do documentário que evidencia a omissão do governo federal, fundamentada na necropolítica e no negacionismo. As reflexões e inspirações são então traduzidas por ilustrações, que acabam por promover a horizontalidade no diálogo entre a equipe técnica e comunidade quilombola. Os traços, feitos por Natália Gregorini, foram feitos em carvão e em seguida digitalizados. O carvão reverencia a terra, que também influencia a escolha da paleta de cores. Os traços também nos remetem às atividades manuais do cotidiano da comunidade, presentes nas histórias das onze mulheres, protagonistas do documentário e, sobretudo, do corpo-território-terra que produz a resistência da comunidade.

Objetivos
Retratar a transversalidade que permeia histórias de vida enraizadas na identidade e memória de mulheres quilombolas, por meio de ilustrações e animações, assim como provocar a polissemia do olhar e o diálogo interepistêmico.

Ano e local da produção
2022, Morro Alto/RS

Análise crítica da obra relacionada à Saúde Coletiva e ao tema do congresso
Através do uso de ilustrações, cientes das singularidades das histórias de vida das protagonistas do documentário, buscamos nos aproximar do que une as vivências e relatos, na ânsia de convidar a ampliar a percepção do ser quilombola. A produção, que se inicia na figura da figueira, evidencia as raízes da comunidade: o pulso desperto pela memória, os afetos através dos laços, a terra que nutre, sustenta e permeia os tempos. A partir desta concepção, na qual são considerados indivíduos e coletividade, humanos e não humanos, território e tempo, foram elaboradas animações que sintetizam conceitos e momentos complexos, além de inspirarem o título e o cartaz da trama. Assim como a vida no quilombo é nutrida pelas ações cotidianas das mulheres, as escolhas quanto a abordagem da narrativa entre equipe técnica e mulheres quilombolas, é nutrida pelos diálogos mediados pelas imagens. Os momentos de retorno das ilustrações ao quilombo permitem que sejam partilhadas, além da razão, emoções. Estes encontros culminam com o aceno positivo para que a história, de raízes fortes, possa agora ganhar asas, e percorrer caminhos e olhares outros. Força e sensibilidade foram, segundo elas, contempladas, agora, segundo uma delas, há que se buscar olhares pelo “final feliz”. A utilização de imagens facilita que a memória, a subjetividade e a imaginação possam ser conciliadas. Tem-se, nesta possibilidade, como nos diz Douglas Harper a evocação de elementos profundos da consciência humana. O uso de outras linguagens favorece que sejam estabelecidos elos entre arte, ciência, razão e emoção. Assim, ao nos aproximarmos do sentipensar, encontramos a possibilidade de expandir as reflexões e sensações envoltas nas complexidades. Esta perspectiva, que favorece o respeito a outras epistemologias, contribui com a melhoria nas relações sociais, facilitando a aproximação de olhares. Concepção que nos parece urgente no enfrentamento ao racismo, com vista aos direitos em detrimento dos privilégios.

Formatos e suportes necessários referentes à apresentação
multimídia, computador, internet

Breve biografia do autor
Bióloga, doutoranda no programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS). Através das diversas relações entre plantas e humanos exercita o sentipensar o corpo-território-terra.