47182 - SENTIDOS E CUIDADOS PARA LIBERDADE: UMA EXPERIÊNCIA CRIATIVA E AFETIVA NA ATENÇÃO PSICOSSOCIAL ESPECIALIZADA MARIA EDUARDA CHAVES ARAÚJO DE FARIAS - SECRETARIA DE SAÚDE DO RECIFE, VITOR GODOY FERREIRA LIMA - SECRETARIA DE SAÚDE DO RECIFE, EMMANUEL ITALLO DA SILVA SANTOS - SECRETARIA DE SAÚDE DO RECIFE, CARLA PINHEIRO MACIEL - SECRETARIA DE SAÚDE DO RECIFE
Contextualização As atividades em grupo no contexto de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) 24 horas constituem demanda essencial para o cuidado em Saúde Mental. A partir da importância do mês de maio na história da Luta Antimanicomial no Brasil, durante o qual ocorrem movimentações coletivas e sociais na defesa de uma atenção à saúde antimanicomial e antiproibicionista, surgiu a proposta da construção de uma Oficina Terapêutica no ambiente do CAPS utilizando estratégias de cuidado alinhadas com a promoção da saúde, liberdade e autonomia dos sujeitos.
Descrição As Oficinas Terapêuticas intituladas “Sentidos e Cuidados para Liberdade” foram idealizadas e facilitadas por dois residentes em Psiquiatria, um residente de Medicina de Família e Comunidade e um psicólogo residente do Programa Multiprofissional em Saúde Mental da Rede de Atenção Psicossocial pela Secretaria de Saúde do Recife (SESAU). As oficinas foram iniciadas com dinâmicas de apresentação dos participantes e práticas de respiração ou alongamento. A seguir, para abordar a temática central de cuidados em liberdade, cada encontro utilizou uma experimentação terapêutica diferente: aromaterapia (identificação de óleos essenciais, fabricação de blends aromáticos para uso pessoal e momento de automassagem com o blend fabricado); trabalhos com imagens e SoulCollage®; literatura de cordel; corporeidade e movimento; música e instrumentos de percussão.
Período de Realização Foi realizada uma Oficina Terapêutica semanalmente, no período de 03/05/2023 a 14/06/2023, totalizando seis encontros.
Objetivos Construir um espaço de integração entre usuárias/os, residentes e equipe do CAPS, através da experimentação e elaboração coletiva de sentidos através da música, aromaterapia, expressão corporal, SoulCollage®, literatura de cordel e outros estímulos sensoriais. Potencializar estratégias de cuidado que dialoguem com a liberdade, integrando as dimensões de acolhimento e de trabalho vivo e criativo. Promover momentos de relaxamento, através de técnicas de respiração, alongamento e uso de óleos essenciais.
Resultados As oficinas utilizaram recursos expressivos como estratégia de cuidado no ambiente do CAPS, acolhendo as demandas do processo de adoecimento mental e de incentivo ao autocuidado. Os encontros permitiram reflexões sobre os processos de saúde e agravo mental, observando como são atravessados por diversos marcadores e contextos, como a família, espiritualidade, religião e classe social. A atividade foi marcada pela abertura à interação, segurança e respeito em relação aos conteúdos compartilhados. Nas avaliações, as/os usuárias/os relataram sensações de bem-estar, tranquilidade e relaxamento, atribuídos ao uso dos aromas em difusor de ambiente, à baixa iluminação, aos exercícios de alongamento, técnicas de respiração e à abordagem proposta. As intervenções com colagem e SoulCollage®, proporcionaram abertura à intuição, à criatividade e ao compartilhamento de aspectos do próprio sofrimento mental. A utilização da corporeidade e de estímulos sonoros como caminhos de experimentação estimulou a expressão através do movimento, pontos também avaliados positivamente pelo grupo.
Aprendizados A participação por demanda espontânea após convite nas oficinas se mostrou desafiadora, dada à pluralidade de formas de interação e conexão com o mundo observadas entre os usuários. Nesse contexto, usuários que demonstravam baixo investimento nas atividades em grupo do CAPS foram se aproximando dos recursos expressivos utilizados de forma progressiva ao longo dos encontros e ampliando o olhar sobre seu cuidado. Foi observada a importância da preparação do ambiente — aromas, iluminação, conforto do corpo — na qualidade da experiência proposta. Tornou-se perceptível a vinculação entre usuários e residentes ao longo do processo, propiciando sentimentos de validação e pertencimento do grupo. Ainda, sentimos e refletimos sobre as contenções simbólicas que perpassam a experiência da corporeidade, da criatividade, dos afetos, do autocuidado, das narrativas dos sujeitos e do vínculo no trabalho em saúde mental.
Análise Crítica A discussão sobre os sentidos atribuídos ao cuidado em liberdade abriu caminhos para o compartilhamento de experiências e percepções de si e de sua saúde mental - Ao longo dos encontros, o retraimento inicial deu lugar à construção compartilhada de um espaço de liberdade e autonomia, muito além de prescrições e medicamentos. A utilização de ferramentas como música, aromaterapia, literatura de cordel, trabalho com imagens e movimentação do corpo permitiu a expressão de dinâmicas psíquicas do sofrimento mental, proporcionando reflexões sobre autocuidado/cogestão de cuidados em saúde, amparando-se na liberdade e na autonomia dos sujeitos. Por fim, as experiências e compreensões compartilhadas nas oficinas terapêuticas revelaram o potencial da utilização de tecnologias leves e do trabalho vivo em ato para o cuidado em Saúde Mental realizado nos serviços territoriais.
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